Mundo Mundo
Por Alcides Buss
Corruíras
Se inútil a vida fosse,
corruíras não fariam ninhos.
Mal finda o inverno,
lá vem elas, alegres, catando ciscos
e levando-os, às pressas,
a um lugarzinho escondido.
Aqui onde moro
costumam fazer sua casa
na caixa dos correios.
Bem sabem que cartas já não chegam.
As contas a pagar
que fiquem de lado! Só querem
o pequeno cantinho, quase
nenhum, de seu futuro.
Ao chegar outra vez o frio,
algumas asas a mais ajudarão o mundo
a seguir em frente.
*
Dilemas
São muitos os males do mundo.
Doenças velhas e novas;
nas florestas, o fogo;
nas cidades, a fome;
o lixo no mar…
Chegar-se à semana seguinte
é sempre vitória!
O vindouro mês,
o novo ano; a próxima década,
se deus quiser se vai tirar de letra.
O diabo, mesmo,
é o próximo século.
Garantir, pudéssemos,
faríamos festa!
*
Palimpsestos
Para Antônio Carlos Secchin
O poeta não tem jeito:
escreve e reescreve o que já escreveu.
Pudesse, apagaria esse antes
que pesa e, às vezes, subjuga
o seu dia.
Mas nada pode,
que da alma nada se apaga.
Engana-se, então, fazendo de conta
que seus escritos na verdade
não são seus. Compõem mal e mal
um palimpsesto do mundo.
Mundo, mundo, grita-lhe
o destino; tudo que inspira,
respira. É a vida!
Alcides Buss reside em Florianópolis/SC, onde atua como escritor, professor e editor. É casado com Denise, pedagoga, e tem três filhos: Deluana, jornalista; Loreno, engenheiro; e Hermano, radialista e produtor gráfico e audiovisual. Seu primeiro livro surgiu em 1970 com o título de Círculo quadrado. Depois dele, publicou mais vinte e cinco títulos, dos quais dois são infantis e muito lidos pelo Brasil afora: A poesia do ABC e Pomar de palavras. Foi o criador dos varais literários e do movimento através do qual um livro é passado, de graça, de uma pessoa a outra. Na Editora da UFSC, da qual foi diretor por dezessete anos, manteve a coleção Ipsis Litteris, que lançou dezenas de novos escritores. Também na UFSC criou oficinas de criação literária de conto, crônica e poesia. Coordena o Círculo de Leitura de Florianópolis. Entre os inúmeros prêmios que já recebeu, destacam-se o da Associação Paulista de Críticos de Arte, pelo livro A poesia do ABC; o de Mérito Cultural Cruz e Sousa, do Governo do Estado de Santa Catarina, e o Prêmio Fernando Pessoa, da União Brasileira de Escritores – RJ, pelo livro Janela para o mar. Seu livro mais recente é Em nome da poesia, uma prosa literária, publicado pela Caminho de Dentro Edições. Foto: Arquivo pessoal
Próxima Parada: Catia Cernov

Próxima Parada é o projeto de literatura da Revista Gulliver idealizado pela escritora, jornalista e artista Patrícia Galelli. Um espaço de difusão semanal de pessoas que escrevem em Santa Catarina sem um recorte de gênero, mas da produção num espaço geográfico, livre de estereótipos e que ganha leitores além das fronteiras. É uma viagem para conhecê-las, cumprimentá-las, acessar um recorte do mundo que criam.