Próxima Parada: Carlos Henrique Schroeder

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As incorreções

Por Carlos Henrique Schroeder

Esta bem poderia ser uma típica história do John Cheever, nunca do David Foster Wallace ou do Donald Barthelme, e quem sabe do Jonathan Franzen, mas não tenho certeza. Ela começa no apartamento da mãe, numa típica cozinha de classe alta de Balneário Camboriú, em que é possível sentir o cheiro do mar, mas também do Chester (que demoraria mais uns dez minutos para estar no ponto). Então ainda havia tempo para ele chegar. O molho estava secando e os acompanhamentos estavam na bancada, esperando para ir à grande mesa da sala (não ousaria colocar os pratos antes da chegada de todos). Só faltava a chegada do mais velho, que talvez não viesse. No Natal passado ele não veio, nem no outro, mas nesse ela acreditava que ele viria: afinal, ele a desbloqueou e até conversaram. Estava na cozinha há um bom tempo, pois sabia que poderia chorar a qualquer momento. As pessoas ficam mais velhas e choram mais, como as crianças. É o ciclo. É o Natal. De vez em quando aparece um neto ali, correndo, chamando a vovó, mas logo sai correndo pelo amplo apartamento. A filha do meio (a mãe dos três netinhos, recém-divorciada) e o mais novo (com a namorada), estavam na sala, esparramados no sofá. Conversavam animadamente sobre a esperança da Vacina, ou como estavam cansados de usar máscaras, que pegassem de uma vez o vírus chinês (ele disse), e criassem logo imunidade (a namorada dele continuou), e que a vida voltasse ao que era (a mãe dos netinhos completou). Ninguém ali naquele sofá esperava a vinda do mais velho. Sabiam que a mãe sofria, mas era isso, o mundo agora era nós contra eles (ele disse), mas talvez as coisas se acalmassem (contemporizou a namorada) e isso vai passar (disse a mãe dos netinhos).

O interfone toca. A mãe grita: eeeeepppppppaaaa!, lá da cozinha. É um berro que mistura alegria e alívio. Os irmãos se olham, incrédulos. Ele viria mesmo? Sentaria na mesma mesa? Os “vão tomar no cu” e “não quero mais ver vocês” e “morram” e “fascistas” ficaram para trás? O bloqueio do contato de todos também? Está tudo lá, ainda, bastando rolar o botão do WhatsApp para baixo no abandonado grupo da família, como uma memória artificial. A mãe atende o interfone, e murcha: diz que não, não era ali, “você digitou errado”. Alguém chegava para uma ceia, mas não para a dela. Talvez até para uma família que estivesse inteira (em Santa Catarina? Impossível!). O barulho do interfone sendo socado no conector fez com que a turma do sofá se assustasse. A mãe não era mais a mesma. Mas quem ainda era igual?  No final das contas, as pessoas se transformaram em suas crenças, e isso não tem a ver com verdade ou mentira, mas com mágica, ilusão.

O mais novo estufou o peito no sofá, a não aparição do irmão era mais uma vitória dele, ou das suas crenças. Tchau, querido. Ele não veio, não viria. Era uma maneira do mais velho machucar a mãe, de fazê-la sentir-se culpada. Os irmãos se desprezavam há tanto tempo que foi um alívio cortar as relações. Talvez se o pai estivesse vivo, ainda seriam uma família: eles respeitavam o pai, mas nunca suas opiniões. Bem, a família se manteve razoavelmente em armistício durante a campanha eleitoral de 2018, e mesmo com a vitória do candidato da mãe, irmão mais novo, irmã do meio, com expressivos 82% dos votos na cidade, e 75,2% no estado, todos continuaram num clima razoável, mas de certa distância.  Mas quando a mãe e o irmão começaram a relativizar atitudes e falas do eleito, que para o mais velho eram inaceitáveis, o clima foi subindo e o grupo explodiu. No princípio a mãe achava que estava correta, já que os seus amigos, todos que conhecia e todo o WhatsApp lhe dava razão, mas já não sabia.

Ela chora na cozinha, e vê seu reflexo no vidro do forno elétrico, se fundindo com o Chester. Que diabos eu fiz para merecer isso, ela se pergunta. Ela só fez uma escolha, política, e a defendeu, e isso a colocou do lado de parte de seus filhos (o mais velho sempre disse que o mais novo era o predileto, e a irmã, a protegida). Ela nunca entendeu os mecanismos fisiológicos, cognitivos e os fatores contextuais por trás de uma decisão moral, isso não era para ela, e sim para a interdisciplinaridade entre filosofia e psicologia social/filosofia experimental. Não para ela. Mas e se ela estiver errada, mas certa. Errada por escolher um lado, e certa por ter sua opinião. Errada por compartilhar sua opinião e ofender um filho, mas certa por defender os outros filhos e errada por seguir sua intuição. Ou duplamente errada (no campo político e afetivo) e certa por manter a maior parte da sua família unida. Ou estar certa no afetivo e errada no político ou vice-versa. Ou enfim: se ela, a cidade, o estado e o país erraram ao escolher este presidente, e acertaram em revelar a verdadeira face do Brasil, a ignorância. E tal qual o Gato de Schrödinger, ela pode estar certa e errada ao mesmo tempo, assim como o Chester está pronto e não está pronto nesse momento, ele está assado e pronto para ir à mesa, mas não está pronto porque seu filho não chegou. E isso não se parece mais com uma história de Cheever, e sim de Chester. A certeza era de que isso tudo iria passar, algum dia, como um grito, que some após a sua reverberação. Ou não.

Carlos Henrique Schroeder (Trombudo Central, 1978)  é autor de “Ensaio do vazio” (7Letras, 2007), adaptado para os quadrinhos; da coletânea de contos “As certezas e as palavras” (Editora da Casa, 2010), vencedora do Prêmio Clarice Lispector, da Fundação Biblioteca Nacional, e do romance “As fantasias eletivas” (Record, 2014), em adaptação cinematográfica e lançado na Espanha pela Maresia Libros. Este livro também foi leitura indicada nos vestibulares UFSC, UDESC e Acafe nos anos de 2016 e 2017. Publicou também “História da chuva” (Record, 2015), obra contemplada pela bolsa Petrobras Cultural. Em 2020 lançou “Aranhas”, pela Record, com narrativas breves inspiradas em aranhas. Tem contos traduzidos para o inglês, alemão, espanhol e islandês. Foto: André Guse Barbi.

Próxima Parada: Renan Bernardi

Próxima Parada é o projeto de literatura da Revista Gulliver idealizado pela escritora, jornalista e artista Patrícia Galelli. Um espaço de difusão semanal de pessoas que escrevem em Santa Catarina sem um recorte de gênero, mas da produção num espaço geográfico, livre de estereótipos e que ganha leitores além das fronteiras. É uma viagem para conhecê-las, cumprimentá-las, acessar um recorte do mundo que criam.

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