Marcoliva reúne estrelas da música de SC em novo single, Todos os Santos

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Crédito: Guto Campos

Diz-se que quanto mais palavras um vocabulário tem, melhor se consegue elucidar a existência e expressar-se sobre ela.  Marcoliva é um músico que transita entre muitas linguagens (é poeta, artista visual, ceramista, compositor, contador de histórias), tanto porque precisa e acredita na expressão como necessária ao ser humano, como também porque é uma forma de conexão. Não é de estranhar, portanto, que seu primeiro trabalho solo em 35 anos de palcos e discos lançados em parcerias seja um solo entre aspas. O single Todos os Santos, com lançamento em música e vídeo nesta sexta (17), reúne grandes nomes da música de Santa Catarina num trabalho construído em conjunto. A estreia será com show virtual ao lado dos percussionistas Rodrigo Campos e Alexandre Damaria, no estúdio da Café Maestro Produções. A transmissão ao vivo será às 21h30, neste link. A data celebra também os 51 anos do artista. Quem quiser, pode fazer doações espontâneas a partir de R$ 10 aqui. 

Em Todos os Santos, Marcoliva pede a bênção a artistas sagrados e consagrados da música brasileira. É dedicada a João Bosco, Aldir Blanc, João Gilberto, Noel Rosa, Zininho e Luiz Henrique Rosa, entre outros “santos” da MPB. Uma forma de reconhecimento e também gratidão a quem o influencia musicalmente. Na metáfora do próprio Marcoliva, referências que estão já de um lado da margem de um rio e encorajam quem ainda não atravessou.

— A canção é uma espécie de reza. Rezando e pedindo para que façam valer a minha voz, a minha arte. Valha-me meu nosso senhor João Bosco. Valha-me todos os santos para eu não calar a minha voz — brada.

Ao citar alguns, Marcoliva se propõe a falar de tantos ilustres da música, conhecidos ou não. E evoca o conceito de não-eu para valorizar a parceria e a conexão com o outro. Nesse sentido, o artista celebra também os santos de casa, músicos de Santa Catarina que são estrelas da cena instrumental, alguns parceiros de longa data em projetos diversos: Rafael Calegari (baixo), Fábio Mello (sax), Rafael Meksenas (guitarra), Rodrigo Campos e Alexandre Damaria (percussão).

O single faz parte de um trabalho que circularia em 2020 por diversas cidades de Santa Catarina, não fosse a pandemia. Diante do novo contexto, novas possibilidades: além do show virtual nesta sexta, com figurino de Natália Seeger, cenário de Denílson Antônio, produção de Davi Tekler e direção musical de Alexandre Damaria, será lançado também um videoclipe. Com direção da cineasta e pesquisadora Cláudia Aguiyrre, trata-se de uma videoarte.

Crédito: Volo Gilmes & Fotografia

O lançamento do single marca o início da parceria de Marcoliva com a Café Maestro Produções e estará disponível a partir de 18 de julho nas plataformas Spotify, Deezer, SoundCloud e iTunes. O segundo single será lançado no dia 4 de setembro.  

A bandeira da música autoral em SC

Aos 15 anos Marcoliva já ostentava carteira de músico profissional. Correu o país na companhia de grupos nativistas, sucesso nos anos 1980. Nasceu em Carazinho (RS), interior gaúcho, berço de outro grande nome da cena musical do Sul do país, o mestre Guinha Ramires. Especializou-se em violão e voz e aos 18 anos foi apresentado à onda Tropicalista e foi inundado por Caetano, Gal, Gil.

— Estudei numa escola alemã e não era muito fácil. A música me colou no mundo, foi quando entrei para a turma. Me deu uma salvação e eu me agarrei nela. Toquei no grupo de jovens da igreja, grupo de musica nativista, em barzinho. Fazíamos show no cinema. Escolhi isso muito cedo. Não podia ficar sem trabalhar. E escolhi a música como fonte de trabalho — conta.

Em 1994 trocou o Rio Grande do Sul por Santa Catarina, onde começou a tocar na noite de Florianópolis e formou parceria sólida com a multiartista Tatiana Cobbett, o Sonora Parceria. O duo levantou a bandeira da música autoral em Santa Catarina como poucos artistas fizeram no Estado. Em quase 20 anos, gravaram cinco álbuns.

— Lembro que encontrei uma produtora, a mãe da Tatá (Tatiana Cobbett). Ela dizia: “se tu não tocar tuas composições, ninguém vai tocar por você. Na época eu me apresentava em quase todas as casas noturnas da cidade. Comecei a mostrar meu repertório e simplesmente fiquei sem agenda — lembra.

Se essa questão se deve ao público do Estado, pouco acostumado, ou ao fato de SC ficar fora do circuito Rio-São Paulo, ainda é uma incógnita para quem faz música por aqui.

— Fato é que quando fizemos uma turnê pelo Uruguai, percebi que o público apreciava e respeitava tanto as canções de Chico [Buarque] quanto as nossas. Tem uma turma grande que também foi fazendo suas peças autorias. Isso cria nicho de mercado. A internet contribuiu muito, hoje é só garimpar e se encontra muita coisa boa — avalia o músico.

Multiartista e autodidata

Marcoliva também é professor de música e idealizador de projetos como Crescendo com Arte e Boi de Cá, dedicado à pesquisa do folclore catarinense. Já publicou os livros Dupla Poesia (2008), com Marli Silveira, Ed. Edunisc; De A à Z, uma história poética da brincadeira do Boi-de-Mamão na Ilha de Santa Catarina (2012), Ed. Bernúncia; e Paralelepípedo Poema (2016), Ed. Lesma.

Esse trânsito por tantas linguagens é fruto de uma necessidade financeira, não apenas da geralmente romantizada ideia de botar para fora a energia criativa. Por ser autodidata, Marcoliva é um dedicado pesquisador da música e educação infantil. Enquanto profissional autônomo, o tornar-se multiartista passou e passa pela necessidade de manter o sonho vivo, a chama acesa e o pão na mesa.

— De repente a arte vai te levando e te colocando em situações que você tem que se virar. Fui me apropriando de outras linguagens. A cerâmica entrou como efeito dominó: se não encaixa de um lado, encaixa do outro. E quando comecei, já fiz logo obra de arte. Tudo isso passa pela necessidade de sobrevivência mesmo, a material. A manutenção do cotidiano leva a imbicar por caminhos diferentes. Nem sempre a música dava esse suporte. Principalmente quando comecei a compor. Quando você começa a escrever, quem é que quer te ouvir?

Marcoliva, é uma honra poder te ouvir.

Agende-se

Lançamento do single Todos os Santos: Live Show, com Marcoliva e os percussionistas Rodrigo Campos e Alexandre Damaria
Quando: 17/7/2020, às 21h30
Onde: Canal do YouTube do Café Maestro Produções
Quanto: contribuições espontâneas via mercado pago de R$ 10 a R$ 100

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