Criando novas lendas, no filme Butterfly Kisses

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Como se manter relevante nesta década, após tantas incursões metalinguísticas? Ainda somos capazes de construir lendas duradouras? Lançado neste ano, o terror independente Butterfly Kisses parte de uma conhecida premissa que nos coloca diante de um grupo de estudantes que está produzindo um documentário estudantil sobre um desconhecido mito dentro de uma cidadezinha americana –  o Peeping Tom. Trata-se de uma fábula em que, chegando numa linha desativada de trem, caso se olhe durante uma hora sem piscar para o fim do túnel, uma figura diabólica aparece e passa a te perseguir. Ela se aproxima cada vez mais, entre uma piscada e outra, até chegar perto o suficiente para tirar sua vida.

É esta história que dá origem a intenção de dois jovens estudantes, que passam a entrevistar moradores da região – dentro de uma estrutura narrativa que carrega similaridades gritantes com outros grandes filmes do found footage (A Bruxa de Blair e Willow Creek), misturando seus requintes documentais com a força do terror perpetrado pela mitologia apresentada ao grande público. Quem descobre as fitas é o realizador Gavin York, que busca remontar o projeto dos dois jovens como um documentário e não como filme de terror. A partir daí, York é seguido pelo diretor Erik Kristopher Myers e equipe a fim de retratar seu interesse pela lenda, as conseqüências do caminho escolhido e a tentativa de provar o que realmente aconteceu com a equipe das filmagens.

Naturalmente, à primeira vista, quando se analisa as gravações dos estudantes, a narrativa pouco tenta estabelecer uma conexão com o real ou uma lógica proximidade com o snuff. Myers se interessa mais pela pesquisa de Gavin York  do que pelo horror criado para incidir sobre os jovens do projeto. Peeping Tom, neste sentido, torna-se figura coadjuvante, assim como a própria Bruxa de Blair se tornou em 1999. É um documentário preocupado com a imersão do seu principal personagem, o realizador Gavin e como as fitas passam a assombrar sua vida pessoal. Neste espectro, Erik Kristopher Myers cria uma obra que não é apenas um grande terror, como também é hábil em documentar como se faz um. Gavin se torna um personagem fascinante, aos poucos, alimentando a paranoia dele mesmo junto a do que vemos nas fitas dos estudantes. Deste modo, o acréscimo de figuras como Eduardo Sanchez torna a metalinguagem inesquecível, a medida que percebemos as intenções dos realizadores em transformar tudo aquilo num passeio pelos bastidores do gênero tanto quanto o lançamento de uma lenda nova e a sutil arte de se tornar relevante dentro de um subgênero que já encontra dificuldade em manipular o público.

Existe, afinal, uma diferença entre mockumentary e found footage. Myers sabe dividir muitíssimo bem as duas artes, criando uma interlocução invejável sobre o processo de manipulação fílmica. Indicando desde o início, por exemplo, o ponto de fuga de sua obra, o cineasta torna Butterfly Kisses, conforme vamos observando seus easter eggs, uma obra de apreciação quase acadêmica, ao manter o olhar do espectador sempre apontado para um determinado lugar; da mesma forma com que trabalha o processo de montar pequenas sinalizações que criam o tormento das fitas – aqui, os meus favoritos são os significados dos códigos entre a estática e o olhar morto de um personagem ressaltando o começo de tudo.

É lindo o simbolismo que a obra gera, idem, quando coloca a bateria da câmera e a filmagem como a própria libertação de Peeping Tom. Neste processo, afinal, Meyers não está dando somente a desculpa que precisa para conceber uma nova lenda, mas também avaliando que algumas histórias só são capazes de chegar até nós desta forma: por meio da arte e do cinema.

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