Um pai que ama fuscas, uma filha que ama livros

Compartilhe

Não sei exatamente quando o meu pai começou a gostar de fuscas – eu ainda não existia. Lembro de quando eu subia sobre os paralamas de ferro que serviam como banco traseiro do jipe Willys, que ele próprio montou, aos poucos, como bricolagem: painel de Maverick, traseira de Rural, motor de Opala. Sobre o capô, duas estatuetas de mulheres nuas aladas, cromadas de prata, de algum carro antigo cujo ornamento queria antecipar o espírito da marca.  

O pai e a filha, uma dessas pestinhas de cabelo curto e que preferia não tirar o pijama, entregávamos botijões de gás pelas estradas de terra e cascalho com o jipe branco, lataria 51 sobre chassi 54, o jipe de nome Billy Alfredo. 

Desenho de Patrícia Galelli

Não sei exatamente quando comecei a escrever, nem quando comecei a dar nome aos carros do meu pai. Lembro antes que o Alfredo foi o meu primeiro barco viking, minha primeira ideia de liberdade, meu primeiro susto como motorista, quando voei de uma ribanceira e não faço ideia até hoje de como é que saí ilesa. “alô, pai, pode mandar um guincho aqui? É que caí da estrada, nada grave”, e meu pai não mandou o guincho porque “cair da estrada” não era o mesmo que “voar estrada abaixo”. Fui literalmente salva pelo santantônio, aquele acessório em forma de trave que antes servia para eu me pendurar como uma saracura de cabeça para baixo, porque o jipe foi meu primeiro parque de diversões.  

:::

Meu pai subia qualquer morro com o Alfredo; saía de qualquer lamaçal. Foi ele quem me ensinou a colocar a tração nas quatro rodas para sair de qualquer enrascada da estrada com o jipe e das enrascadas da vida com o seu amor.

O jipe é onde o meu amor pelo meu pai encontra o amor do meu pai por mim. Ele existe desde que eu existo. O jipe me faz sentir. O fusca me faz pensar. 

:::

Lendo Roberto Marks, no Guia Histórico do Fusca, soube que muitos foram os protótipos do volkswagen, o “carro do povo”, como os desenhos de Le Corbusier, da década de 1920, na forma de um besouro, ou como os do húngaro de origem judaica Josef Ganz, jornalista e editor da revista Motor-Kritik, que apresentou a execução do protótipo Standard Superior no Salão de Berlim de 1933, primeiro evento de que Adolf Hitler participou como chanceler da Alemanha. Hitler, descontente com a antecipação do projeto de Ganz, relembrou que o “carro do povo” era uma antiga proposta sua. Josef partiria pouco depois para a Suíça, fugindo da perseguição nazista, enquanto o ditador financiaria e interferiria sobremaneira no projeto do volksauto do engenheiro Ferdinand Porsche, que há 30 anos trabalhava em protótipos de automóveis, e havia sido desafiado por Hitler a projetar um automóvel popular que transportasse quatro ou cinco pessoas, mantivesse velocidade de 100 km/h, consumisse 14km/litro em média e que custasse qualquer preço, desde que abaixo de 1 mil marcos imperiais. 

A história do Fusca traz um dos calotes mais bem dados ao povo alemão. Irritado com o fato de que o “carro do povo” precisaria de subsídio do governo para custar à população o valor que queria, Hitler criou a Organização para o Desenvolvimento do Carro do Povo Alemão, transferindo o desafio de levantamento de fundos para a construção da fábrica de Fuscas para a “frente de trabalho alemão”, uma organização controlada pelo partido nazista. O executivo Bodo Lafferentz teve uma ideia para fazer o povo financiar a fábrica: uma espécie de consórcio, em que cada interessado em ter um fusca pagaria 5 marcos por semana na compra de selos, colecionáveis numa cartela. Ao preenchê-la, a criatura entraria em contato com a fábrica para buscar o seu fusca. Os selos começaram a ser vendidos em agosto de 1938 e a previsão de entrega dos primeiros carros era fim de 1939. No começo daquele ano, mais de 300 mil alemães, comprando selos semana a semana, estavam com as cartelinhas para completar, mas Hitler invadiu a Polônia em 1° de setembro e nenhum deles conseguiu receber seu tão esperado fusquinha. Um calote e tanto dos nazistas.  

:::

Não sei se meu pai, que ama fuscas, sabe dessa história. Mas meu pai sabe que eu amo livros, embora eu também não saiba o quanto meu pai compreende a ameaça e o desgosto pelo qual passamos, nós que amamos livros. O que quero dizer é que coexistimos neste presente enlameado de passado, eu e meu pai. Ele remonta fuscas, peça por peça, no interior de Concórdia, e eu escrevo livros, página por página, na Ilha de Santa Catarina. Meu pai remonta o carro que foi o mais popular no Brasil, nacionalizado por Vargas, um presidente totalitário, o mesmo carro adorado pelo ditador alemão que queimava livros – e que assassinava pessoas. E que hoje inspira governos como o brasileiro a censurar livros e a perseguir artistas e a diversidade cultural de um país plural.

:::

O que quero dizer é que a história do “carro do povo”, ícone do meu pai-mecânico, é um exemplo de calote contra o povo, que é o que governos autoritários fazem, quando insistem na lógica de completarmos cartelinhas, selo por selo, pagando para um dia termos educação, saúde, arte, aposentadoria. Eles escolhem a cartelinha e quais selos seremos obrigados a comprar, o que prenuncia o calote, a entrada pelo cano.   

:::

O pai que ama fuscas também ensinou outra coisa à filha, que ama livros. Ensinou a não desistir. Então vamos: coloquemos a biblioteca no jipe. Acionando a tração das quatro rodas, relembro que podem tentar nos enfiar num buraco sem saída, mas sairemos sempre, ainda que com pneus furados e alguns arranhões. Porque sabemos que a censura e o pensamento único fazem parte da cartelinha. De algum modo, ainda sou uma pestinha de cabelos curtos que prefere não tirar o pijama, mas agora também dirijo e sei pra que lado vou, com o vento no rosto e sem freios. Como a estatueta das mulheres nuas e aladas do capô do jipe que permanece em mim, antecipo que esse é o espírito do nosso tempo.  

Coluna de estreia de Patrícia Galellli na Revista Gulliver, Vértebra da Mão. Texto delicioso sobre fuscas, literatura e o horror de governos autoritários.

Patrícia Galelli é escritora, jornalista e artista-pesquisadora. Publicou os livros Carne falsa (Editora da Casa, 2013), Cabeça de José (Editora Nave, 2014), que recebeu o Prêmio Elisabete Anderle de Incentivo à Cultura em 2013, da Fundação Catarinense de Cultura, Gávea (selo Formas Breves/e-galáxia, 2014) e o livro de artista Um bicho que (Miríade Edições), com primeira edição em 2015 e segunda edição em 2016. Em 2020, lança primeiro livro para crianças, Gato-átomo (Editora Nave, selo Nave-nina). É mestre em Processos Artísticos Contemporâneos (Udesc). Bacharel em Comunicação Social – Jornalismo, com pesquisa sobre a relação do jornalismo e da literatura na produção de crônicas. Foto: Ayrton Cruz

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *